Meninas Digitais: iniciativa brasileira quer atrair jovens para a área de Computação

 

Por Renata Sequeira*

**Texto especialmente escrito para a seção Forrest LAB

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Não é novidade que a desigualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho é grande. Em algumas áreas, como as de Tecnologia da Informação (TI), Informática e Computação, a situação é ainda pior, por causa da diminuição no número de mulheres nessas profissões, o que vem ocorrendo desde a década de 1980, quando representavam metade das turmas de cursos relacionados a TI, segundo estudo da Microsoft em parceria com a Sociedade Brasileira de Computação (SBC). Nos últimos anos, no entanto, diversas iniciativas nacionais e internacionais tentam mudar isso. No Brasil, a SBC chancela o programa Meninas Digitais, que vem desenvolvendo estratégias para despertar o interesse de estudantes do Ensino Médio/Tecnológico e dos anos finais do Ensino Fundamental ao divulgar a área da Computação.

Minicursos, oficinas, realização de dinâmicas, palestras com os estudantes e profissionais que já atuam na área são algumas das estratégias utilizadas pelo programa, que surgiu a partir de discussões no Women in Information Technology (WIT), evento do Congresso da Sociedade Brasileira de Computação (CSBC), que teve sua primeira edição realizada em 2007. Quatro anos depois, sob coordenação da Secretaria Regional da SBC Mato Grosso, nascia o Meninas Digitais, coordenado pelo professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Cristiano Maciel (secretário regional da SBC – Mato Grosso), e pela professora da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), Silvia Amélia Bim (secretária regional adjunta da SBC – Paraná), que atua na coordenação conjunta do programa desde 2012.

“Ainda é necessário refletir sobre como podemos debater as causas da redução do número de mulheres na área de TI e analisar quais fatores estão relacionados com a pouca frequência delas nos cursos de graduação em computação. Acreditamos que o registro destas ações e o compartilhamento com a sociedade podem estimular novas iniciativas e atenuar um problema no ingresso nos cursos de nível superior”, destaca Cristiano Maciel. Sílvia comenta o desafio de reunir dados sobre o tema:

“Coletar informações sobre carreira e inserção das mulheres é uma das nossas metas para 2017, porque é realmente um desafio, pois trabalhamos com os números do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes [coordenado no Brasil pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP)] e de algumas instituições. Para isso, temos que colher elementos por Estado e depois reunir tudo, o que exige uma estratégia. Apesar de todos os esforços, ainda não temos projetos em todos estados e muitos são ações isoladas de algumas pessoas e instituições. Por isso, uma das intenções para este ano é realizar estudos em nível nacional da representatividade feminina na área de Computação, com coleta e análise de dados”, explicou.

Os projetos parceiros estão localizados em apenas 14 estados (incluindo o Distrito Federal), mostrando a necessidade de expansão para garantir que meninas de diferentes lugares, realidades e culturas possam participar do programa. Os multiplicadores das diversas regiões formam uma rede com mais de 20 iniciativas regularmente inscritas (Universidades Federais de Santa Catarina, Brasília, Viçosa, Paraná, Amazonas, Paraíba, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Bahia e Rio Grande do Norte (junto com o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte).

Além do crescimento territorial, os coordenadores esperam que os projetos parceiros tenham recortes voltados especificamente para mulheres negras, indígenas, LBTs etc. Eles também planejam articular parcerias da academia com a indústria, principalmente longe dos grandes centros urbanos. “Nós vemos essa aproximação com a indústria como algo primordial, não só pela troca de experiências, discussões e desenvolvimento de ações conjuntas, mas também para a viabilização de recursos para a realização das ações”, explicou Sílvia.

Cristiano destaca que existe um esforço da comunidade latino-americana para discutir essa causa de gênero e tecnologias e cita o Congresso das Mulheres Latino-Americanas em Computação (LAWCC), evento associado da Conferência Latino-Americana sobre Informática (CLEI), realizado desde 2009, como um importante espaço de troca de experiências. Em 2016, a professora Silvia Amélia Bim apresentou dois trabalhos sobre o Meninas Digitais e a professora Rosiane de Freitas Rodrigues, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), do parceiro Cunhantã Digital [significa menina em língua indígena], apresentou outro. Essa aproximação já rendeu frutos e Rosiane foi convidada para ser uma das coordenadoras do Comitê de Programa do LAWCC 2017, que será na Argentina. Em 2018, o evento ocorrerá no Brasil.

“Em 2016, com a institucionalização do Programa Meninas Digitais via SBC, conseguimos um financiamento inicial apoiado por uma empresa (Dell-EMC), que viabilizou nossa participação no evento, e, consequentemente, projetou nosso programa para a América Latina. Creio que o Meninas Digitais é o maior programa com esse objetivo na América Latina. Essa aproximação é fundamental, não só do ponto de vista de publicações conjuntas (acadêmico), mas na possibilidade de trocarmos experiências e coletarmos dados da América Latina. Projetar o MD internacionalmente também é uma das nossas estratégias”, destacou Cristiano.

A diferença na escolha profissional tem pouca relação com o desempenho escolar das jovens, já que, segundo o PISA, as meninas possuem notas tão boas quanto as dos meninos na maioria das disciplinas, alcançando resultados, por vezes, melhores do que os deles. A desenvolvedora iOS na OLX, Ohanna Perre, 25 anos, fez técnico em Informática no CEFET e Ciência da Computação na UERJ e conta que as áreas de Design, Estatísticas, Marketing, se comparadas à de desenvolvimento (isso inclui iOS, Android e Web), têm muito mais mulher. “Na minha equipe, somos apenas três e a empresa é aberta à contratação de mulheres, mas no mercado tem pouquíssimas”.

O ambiente na universidade não era tão diferente e, nas palavras de Ohanna, “bizarro”: “As pessoas diziam que a minha turma tinha muita menina se comparada às turmas anteriores, mas eram bem poucas. Em uma turma de 60 pessoas, deviam ter mais ou menos seis meninas”.

Ohanna conta que, na escola onde estudou, não eram desenvolvidas iniciativas como a do Meninas Digitais, e acha a iniciativa interessante: “Hoje, no meio corporativo e nas comunidades de troca de conhecimento, eu já vejo alguns poucos estímulos, mas em escola ou faculdade não vi nada. Acho muito legal e importante, porque muitas mulheres nem tentam e as que tentam sofrem muito preconceito. O mercado ainda é muito fechado pra mulher e, mesmo quando a gente consegue entrar, é notório que precisamos provar que somos tão competentes que qualquer homem”.

* Renata de Sequeira Sigarro é jornalista formada pela PUC-Rio e, desde 2010, trabalha na Assessoria de Imprensa da Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos, sendo que, de 2013 a 2015, atuou na Assessoria de Comunicação da Comissão da Verdade do Rio. Começou a carreira como repórter do projeto Viva Favela da ONG Viva Rio e, atualmente, cursa especialização em Análise de Políticas Públicas no Instituto de Economia da UFRJ.  

**Esse texto faz parte da seção Forrest Lab, da empresa Forrest-Conteúdo & Influência. A seção publica textos de autores diversos que têm em comum apenas uma característica: ter uma boa história para contar. O conteúdo dos textos publicados nesta seção expressa exclusivamente a opinião de seus autores e não têm qualquer relação com a empresa.

***Se você tem um texto interessante e gostaria de vê-lo publicado por aqui é só entrar em contato com a gente que vamos avaliá-lo e responder imediatamente🙂

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