Você já ouviu falar no ‘Indique Uma Mina’?

O grupo colaborativo alocado no Facebook indica vagas de emprego para mulheres e pratica a sororidade virtual

Por Renata Sequeira*

**Texto especialmente escrito para a seção Forrest LAB

photo-1436246745626-344c04303c72

“Quando as mulheres apoiam umas às outras, conseguimos realizar coisas incríveis”. Esta é a mensagem da campanha #LeanInTogether, uma parceria entre a AOL e a MAKERS, e que se encaixa perfeitamente na filosofia do grupo colaborativo ‘Indique Uma Mina’. Criado em 2 de junho pela carioca Juliana Ricci, 26 anos, o IUM já conta com mais de 91.700 membros (até a publicação desta matéria) e um volume médio de 700 novas adesões por dia. O nome é autoexplicativo: anunciar vagas de emprego para a inserção de mulheres no mercado de trabalho visando a igualdade de gênero e de salários.

“A opção por ser um grupo exclusivo para mulheres é por causa da sua base feminista. Muitas não são reconhecidas nos seus empregos. É uma questão de ideologia mesmo”, comenta Juliana, que completa: “Ainda temos um grande caminho para percorrer até chegar à igualdade plena de direitos e igualdade salarial. Com mais mulheres no mercado de trabalho, a tendência é que as decisões sejam tomadas por elas e veremos uma representatividade real. Só assim nos sentiremos contempladas e ocuparemos os espaços nos quais ainda não atingimos a igualdade”.

Juliana tem razão. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Ministério do Trabalho e Previdência Social (MTPS) divulgaram, em março de 2016, um estudo a partir dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2014, do IBGE. A análise mostra que, apesar da evolução, ainda há diferenças entre homens e mulheres. Os homens continuam sendo a maioria no mercado de trabalho, com uma taxa de 80% de presença, enquanto as mulheres não chegam a 60% de ocupação em postos de trabalho. Em relação à renda houve uma melhora nos últimos dez anos (2004 a 2014), mas não foi suficiente para equiparar os ganhos entre gênero e raça. Os homens continuam ganhando mais (em média, R$ 1.831, contra R$ 1.288, em 2014) e os homens brancos ganham ainda mais (R$ 2.393, em 2014).

Com 16 anos de idade, Juliana teve o primeiro contato com o feminismo, ao fazer intercâmbio na Nova Zelândia. A vontade de fazer algo começou na faculdade, há três anos, mas o estopim para a criação do Indique Uma Mina foi o acúmulo de notícias ruins ligadas as mulheres. “Eu já tinha pensado em fazer um grupo no Facebook, mas acabei deixando a ideia em stand by, até que, depois de uma semana muito difícil, na qual fiquei muito mobilizada com a história do estupro coletivo no Rio de Janeiro [o caso ocorreu em maio de 2016 quando uma jovem de 16 anos foi vítima de estupro no Morro da Barão, na Zona Oeste do Rio], senti que precisava fazer alguma coisa para cobrir o vazio que tinha dentro de mim. Uma voz me dizia ‘tu tem que ajudar mais mulheres’”, lembra a fundadora, que acaba de se mudar para o Rio de Janeiro, após morar um tempo em Porto Alegre, onde deu aulas de inglês para crianças, e conta como criou o grupo:

“Até tentei fazer trabalhos voluntários, mas as ONGs nunca me deram resposta. Foi então que decidi fazer algo sozinha. Acordei, bolei o grupo, escrevi as regras e esperei até ter um tempo para lançá-lo, que aconteceu por volta das 17h. Quando saí da aula, às 18h30, já tinha 700 mulheres ativas, postando, agradecendo e foi aí que percebi a necessidade de pedir ajuda com a moderação. Algumas delas são amigas de longa data, quase irmãs”, completa.

O dream team é formado por Anastácia Demartine, Bárbara Miranda, Elisa Vasconcelos, Camila Queli, que verificam cada pedido de ingresso para não passar perfis falsos ou de homens e aprovam os posts que devem seguir algumas regras, seja para vagas de emprego ou para solicitar serviços: [VAGA] [EMAIL PARA ENVIO DE CV] [LOCALIDADE DA VAGA] ou [LOCAL] [TIPO DE SERVIÇO]. O que não pode ser feito está escrito na descrição do grupo: adicionar homens, pedir emprego, marcar homens nas vagas e grosseria. Todas as postagens que não seguem essas regras são apagadas.

“Avaliamos todas as ofertas de emprego e checamos datas, o lugar que está oferecendo. É uma fiscalização intensa para filtrarmos só coisas boas. Não aceitamos vagas de modelos antes de falar com as donas das postagens, por exemplo, e verificamos a empresa que está pedindo o serviço. Nosso maior medo é que alguém entre em alguma cilada”, comenta.

O grupo não pára de crescer e uma página pública – Indique Uma Mina News – foi criada para compartilhar notícias e boas práticas que ajudem a empoderar as mulheres e fortalecer a atuação no mercado de trabalho. Já são quase 15.000 curtidas. E os planos não param por aí, como conta Juliana: “Tenho conversado com as meninas da moderação sobre o que ele pode virar, se um site, uma start up. Já estamos no processo de registrar a marca e compramos os domínios. O que nos motiva cada vez mais é receber o feedback de quem conseguiu emprego fixo ou freelancer e montou equipes. Nós temos recebidos respostas muito positivas. Espero que o projeto cresça, porque se mais mulheres nos representarem e ocuparem cargos em diversos setores, mais rápido vamos conseguir viver de igual para igual”, explica Juliana, que comemora a publicação do IUM na lista Mulheres Inspiradoras de 2016, na categoria Internet & Mídias Sociais, divulgado no dia 6 de dezembro. A iniciativa é do coletivo OLGA, projeto feminista criado em abril de 2013, pela jornalista Juliana de Faria, eleita uma das oito mulheres mais inspiradoras do mundo pela Clinton Foundation e autora de campanhas como a Chega de Fiu Fiu e #PrimeiroAssédio.

* Renata de Sequeira Sigarro é jornalista formada pela PUC-Rio e, desde 2010, trabalha na Assessoria de Imprensa da Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos, sendo que, de 2013 a 2015, atuou na Assessoria de Comunicação da Comissão da Verdade do Rio. Começou a carreira como repórter do projeto Viva Favela da ONG Viva Rio e, atualmente, cursa especialização em Análise de Políticas Públicas no Instituto de Economia da UFRJ.  

**Esse texto faz parte da seção Forrest Lab, da empresa Forrest-Conteúdo & Influência. A seção publica textos de autores diversos que têm em comum apenas uma característica: ter uma boa história para contar. O conteúdo dos textos publicados nesta seção expressa exclusivamente a opinião de seus autores e não têm qualquer relação com a empresa.

***Se você tem um texto interessante e gostaria de vê-lo publicado por aqui é só entrar em contato com a gente que vamos avaliá-lo e responder imediatamente🙂

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s