Admirável Mundo Novo – 9 ideias do futuro segundo o Wired Brasil Festival

Por Carla Marques Uller*

**Texto especialmente escrito para a seção Forrest LAB

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Entre os dias 02 e 03 de dezembro, o Rio de Janeiro recebeu o Wired Festival Brasil, versão brazuca de um dos maiores eventos de tecnologia do mundo. O evento percorreu uma bateria de 30 palestras sobre tecnologia, inovação, empreendedorismo e – por que não? – futurismo. O grande detalhe é que esse exercício de imaginação da vida no futuro não trabalha com um horizonte de 100 anos, mas de cinco ou de apenas um. Em curto tempo, já poderemos ter uma alteração significativa do jeito que fazemos as coisas. Afinal, faz menos de 10 anos que o primeiro iPhone foi lançado e eu aposto que você pensou na época que não precisava de um.

Confira abaixo 9 tendências que selecionamos no evento:

1)      CIRCULAÇÃO DO DINHEIRO

O festival apresentou mudanças no banco, no cartão de crédito e na moeda em si. Em suma, o dinheiro sempre foi uma convenção imaginária (como todo mundo sabe, o papel-moeda não vale nada além da confiança que depositamos nele). Agora, a circulação de dinheiro tende a ser 100% digital.

O Banco Original – lançado neste ano com a promessa de operação totalmente digital, exceto pelo saque em caixas 24h – mostrou um modelo em que até a abertura de conta pode ser feita pelo celular. O NuBank, startup de cartão de crédito com 2 anos na praça, se posiciona como alternativa digital e amigável para fazer qualquer tipo de operação sem a velha dor de cabeça de lidar com a operadora por telefone.

Por fim, Ronaldo Lemos, um dos criadores do Marco Civil da Internet no Brasil, falou do blockchain, uma espécie de sistema mundial por trás das trocas financeiras via bitcoins (na tradução livre, a “moeda-bit”). O blockchain já estaria movimentando negócios de bilhões de dólares, no esquema peer-to-peer, sem que um dólar do sistema bancário tradicional estivesse envolvido. Parece dinheiro de videogame, mas, sem confiança, o papel-moeda não seria muito mais do que dinheiro do Banco Imobiliário.

Aí entra um dado crucial para o mundo onde viveremos: confiança. Falar de economia compartilhada (Air BnB, CouchSurfing, Uber) é coisa da semana passada. Mas a base dela está em tudo aquilo que faremos daqui para frente. O nível de confiança nos outros varia geograficamente no mundo: o Brasil, tristemente, tem um dos níveis mais baixos, com apenas 6% das pessoas alegando confiarem nas outras.

2)      O FIM DE CARREIRA DOS MOTORISTAS

“Se você é motorista e quer ser motorista, você será o último da espécie. Quando você se aposentar, será o fim [da carreira]”, provoca Ben Hammersley, ex-editor da Wired UK, para anunciar que o futuro é dos veículos que dirigem sozinhos. Para ele, é uma questão de 10 a 20 anos para o fim da profissão de motorista. A Tesla já produz esse tipo de carro e espera que, até o final de 2017, um deles possa completar o percurso entre Nova York e Los Angeles.

A verdade, para Hammersley, é que ninguém liga para o carro autônomo: “A economia não liga. O que importa mesmo é o caminhão que dirige sozinho”. A Mercedes já vem realizando testes, mas quem entregou há poucas semanas o primeiro carregamento (de cervejas!) foi uma frota de caminhões autônomos do Uber, com software da start-up americana Otto.

Com certeza, seria uma grande revolução logística e tudo que conseguimos pensar agora é: “e se…?”. Uma vaca, uma galinha, uma pessoa atravessar a pista. A conferir.

3)      MÁQUINAS INTELIGENTES NÃO QUEREM SUGAR SEU SANGUE

Muito se falou de inteligência artificial. Muito mesmo. De robôs-dinossauros verdes que conversam com crianças (da CogniToys, com cérebro Watson da IBM) a robôs-mordomos que atendem clientes em recepções de hoteis ou realizam tarefas domésticas.

Em primeiro lugar, esses robôs já existem. O tal dinossauro está à venda em lojas como ToyRUs por pouco mais de 100 dólares. Em segundo lugar, o que se espera deles não é apenas a capacidade de responder qualquer pergunta – como a distância da Lua, onde fica a piscina ou se está chovendo na rua. O que se espera deles é emoção, gentileza, compaixão, interação. Segundo Sean McKelvey, da japonesa Softbank Mobile, milhares de robôs capazes de detectar e reagir a expressões humanas (como raiva, desconfiança ou alegria) já vivem em lares japoneses hoje.

Hammersley, ex-Wired UK, resume o que todos os palestrantes defenderam: “Calma. Os robôs não querem o seu sangue”. Ao contrário de todos os filmes de ficção científica que assistimos desde a infância, os robôs não estão em conluio mundial para colonizar a espécie humana.

A tese é da inevitabilidade da inteligência artificial: sem ajuda das máquinas, não temos como dar conta de organizar e tratar sozinhos tantos dados que geramos. Estamos na era do exabyte e, muito em breve, na yottabyte – vulgarmente falando, a superfície da Terra coberta por dados.

4)    A DEMOCRACIA EFETIVA E DIGITAL

“Dê um upgrade no sistema e devolva o poder às pessoas”. Esse é o mote do partido australiano Flux, que nasceu com objetivo de fazer a população participar diretamente do Parlamento. Na prática, o Flux é um partido que participa de eleições, mas os eleitos só podem votar no Parlamento seguindo à risca as escolhas dos seus partidários (discutidas e votadas em plataforma digital). É um tipo de Governança 2.0, em que os governados de fato mandam nos governantes.

Ronaldo Lemos, do Marco Civil da Internet, também apresentou iniciativas que buscam colocar a tecnologia à serviço da democracia no Brasil. É o caso do Mudamos, plataforma digital que permitiria, por exemplo, recolher assinaturas digitais para abertura de projetos de lei. Ele lembra que, em 27 anos de Constituição brasileira, nenhum projeto de lei foi aberto por demanda popular via recolhimento de assinaturas. Apenas quando um deputado o apresentou no Congresso. Isso porque as assinaturas ainda são recolhidas em papel e levam anos para serem auditadas fisicamente. Com tecnologia, seria possível ajustar o processo, tornando-o ágil, infraudável e auditável.

5)      O FUTURO DO TRABALHO

Quem trouxe essa discussão para o Wired foi a Barbara Soalheira, da Mesa&Cadeira. Não, não é loja de moveis. É uma espécie de laboratório de soluções que trabalha com matéria-primeira básica: uma mesa, algumas cadeiras e as pessoas certas para resolverem determinados problemas. “As pessoas não estão motivadas para trabalharem para você; mas com você”. Essa é uma noção-chave para explicar o futuro do trabalho para toda e qualquer empresa que quer inovar ou meramente resolver seus problemas da forma mais inteligente e criativa possível.

A Mesa&Cadeira tem apenas oito funcionários, mas recruta profissionais sob medida, por curtos períodos, para desafios específicos. A mesa é formada por uma equipe multidisciplinar de qualificações excepcionais, com um líder na cabeceira capaz de tomar decisões certeiras e seguras. Para Bárbara, sem profissionais com perfis muito semelhantes ou muito acostumados com a própria empresa, o trabalho tende a ser mais entusiasmado e menos rotineiro.

Colaboração é outra palavra que apareceu bastante no Wired. É um senso comum, até mesmo para um chef premiado como Alex Atala: “Chef não tem mais segredo. Compartilhar é a melhor forma de liderar”. Você não precisa guardar um segredo sozinho, você precisa ser desafiado a fazer melhor.

6)      REALIDADE VIRTUAL, O FUTURO É A IMERSÃO

“A realidade virtual é o futuro do storytelling”, defende Ricargo Lagarno, diretor da 02 Filmes. Para ele, a realidade virtual, aumentada ou mista (quando objetos virtuais interagem com objetos reais) mudarão a forma como vemos o mundo – e, por consequência, mudarão o mundo em si. A imersão é, agora, a última fronteira da narrativa. Não ache que se trata apenas dos games, isso envolve cinema, música, esporte, educação, ciência, arte e tudo aquilo que pode ser contado/experimentado.

 7)      CIDADES INTELIGENTES E A UBERIZAÇÃO DOS SERVIÇOS PÚBLICOS

A partir do mapeamento e monitoramento dos territórios, cidades como Washington podem ser avaliadas pela população por área de serviço e já conseguem ter acesso a indicadores em tempo real – por exemplo, a taxa de homicídio ou mordida de rato em cada região. A ideia é gerar acesso, transparência e avaliação contínua da gestão de serviços públicos.

 8)      A PRODUÇÃO DE CONTEÚDO DESCENTRALIZADA

O Wired trouxe influenciadores brasileiros e estrangeiros, como a idealizadora do site americano MuslimGirl.com, que falaram sobre as infinitas possibilidades de produção de conteúdo na era das plataformas digitais. Uma década atrás, esse era um mercado feito na base do erro e do acerto; hoje, está altamente profissionalizado – e competitivo.

Se a democratização do conteúdo já não é mais uma grande novidade, que tal a popularização dos satélites? O dado veio do ex-editor da Wired UK, Ben Hammersley: hoje já é possível montar satélites compactos e domésticos, com um custo declinante para lançá-los ao espaço.

9)       SONHAR PEQUENO É TER PESADELO

Ao contrário da previsão de “Admirável Mundo Novo”, clássico de Aldous Huxley, os céus urbanos ainda não estão riscados por helicópteros particulares de pessoas comuns, como eu e você, indo ao trabalho. Ainda dependemos também da reprodução humana à moda antiga (que bom!).

Mas muitas coisas já mudaram, estão mudando e vão mudar mais. Que pesadelo seria pensar que não são possíveis.

*Carla Marques Uller é formada em Comunicação Social pela UFRJ, com mestrado em Comunicação e Cultura pela UFRJ e especialização em Gestão em Marketing pelo Coppead/UFRJ. Em 12 anos de carreira, atuou nas áreas de Comunicação, Engajamento e Educação de organizações como Rio 2016, Oi e Souza Cruz. Na imprensa, passou por veículos como O Globo, O Dia e Reuters. 

**Esse texto faz parte da seção Forrest Lab, da empresa Forrest-Conteúdo&Influência. A seção publica textos de autores diversos que têm em comum apenas uma característica: ter uma boa história para contar. O conteúdo dos textos publicados nesta seção expressa exclusivamente a opinião de seus autores e não têm qualquer relação com a empresa.

***Se você tem um texto interessante e gostaria de vê-lo publicado por aqui é só entrar em contato com a gente que vamos avaliá-lo e responder imediatamente🙂

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