Quando você entra numa loja de brinquedos como são as prateleiras?

Projeto Cadê Nossa Boneca responde: apenas 3% das lojas virtuais de brinquedos no Brasil disponibilizam bonecas negras

Por Renata Sequeira*

**Texto especialmente escrito para a seção Forrest LAB

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Eu fiz o teste. No último final de semana de outubro, fui a uma grande loja de departamento de um shopping da Barra da Tijuca para responder às seguintes perguntas: “Quando você entra numa loja de brinquedos como são as prateleiras?”, “Quantas bonecas negras é capaz de encontrar?”, “E quantas louras?”. Não encontrei nenhuma boneca negra. Nenhuma! O resultado não surpreende. Estudo realizado pelo projeto Cadê Nossa Boneca em parceria com a ONG Avante – Educação e Mobilização Social, de Salvador (BA), divulgado em setembro deste ano, mostra que apenas 3% das lojas virtuais de brinquedo no Brasil disponibilizam bonecas negras. Vale lembrar que, segundo dados do IBGE de 2014, negros e pardos representam 53,6% da população brasileira, mas esse número não se reflete na diversidade dos brinquedos.

“Nós até vemos notícias sobre lançamento de bonecas pretas, inclusive a Barbie, mas, quando vamos até às lojas, não encontramos”, comenta Mylene Alves, uma das idealizadoras da campanha nacional Cadê nossa boneca?, ao lado de Ana Marcilia, que é também psicóloga, e Raquel Rocha, artista plástica.

Não desisti! No dia 27 de novembro fui à mesma loja de departamento, mas em outro shopping também na Barra da Tijuca. Dos vários modelos à venda encontrei apenas um exemplo de boneca preta. Enquanto as amigas realizaram a pesquisa, não era incomum ouvirem que ‘o histórico é de vendas baixas ou de prejuízo quando o assunto é boneca negra’. A consequência desse pensamento é a resistência, por parte dos varejistas, em adquirir e comercializar bonecas negras.

A Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq), principal associação do ramo, foi o primeiro lugar acessado para a coleta de dados. Depois, o trio realizou entrevistas com vendedores e fornecedores, que participavam de uma feira em São Paulo, para ter uma avaliação qualitativa sobre o setor. O passo seguinte foi comparar a quantidade de bonecas brancas e negras no portfólio das fabricantes – afiliadas da Abrinq – e nas lojas online, ou seja, nas revendedoras. As três maiores varejistas de brinquedos do país (Lojas Americanas, Walmart e RiHappy) foram as escolhidas por terem maior volume de negócios. Do total de 3.030 bonecas à venda no site Americanas.com, apenas 18 eram negras (0,6%). Já no site da Ri Happy, das 632 bonecas comercializadas, apenas 17 modelos eram de negras, enquanto no e-commerce do Walmart a proporção era de apenas 20 entre 835. “Há um gap na fabricação e na comercialização entre bonecas negras e brancas, sendo pior na comercialização”, explica Mylene.

O problema estava colocado e as amigas pensaram em maneiras de “assim como na ‘vida real’, existir mais diversidade nas lojas, com mais bonecas negras”. Um mapa colaborativo foi criado para que pessoas de todo o Brasil pudessem colocar os lugares onde encontraram ou não bonecas pretas. Até o momento, elas estavam em 49 endereços e em 132 não existem, o que evidencia a ausência de bonecas negras no mercado brasileiro.

Essa ausência é sentida pelas próprias consumidoras. No último dia das crianças, Renata Santos, 28 anos, mãe de Raíssa Cristine Santos, 9 anos, queria dar uma boneca de presente para a menina. “Eu não precisei comprar em artesãs ou procurar muito, porque logo achei, mas, geralmente, não encontramos boneca dos modelos mais famosos”, comentou Renata, que completou: “A intenção de dar boneca preta era porque ela ficava muito feliz em ver que tinha uma boneca parecida com ela. Acho válida essa inclusão e acredito que deveria ser natural ter tantas bonecas pretas, assim como é ter uma branca”.

A outra iniciativa desenvolvida pelo projeto é mapear as produtoras de bonecas artesanais para divulgar o trabalho dessas artistas. Para anunciar o trabalho, basta mandar um inbox na página do Cadê Nossa Boneca, que conta com mais de 23 mil curtidas. “Nosso objetivo é mostrar que tem pessoas vivendo de produzir bonecas pretas e que tem gente querendo comprar. Houve uma movimentação espontânea das produtoras de bonecas [artesanais] e cada uma delas tem histórias pessoais muito bonitas, que falam sobre a necessidade de identificação”, diz Mylene.

Surgimento do “Cadê Nossa Boneca”

O Cadê Nossa Boneca foi criado há seis anos por Ana Marcilio, Mylene Alves e Raquel Rocha, amigas de Salvador que, durante uma arrecadação de brinquedos para a creche do presídio da capital baiana, perceberam que a grande maioria das bonecas era branca. A sensação de que tinham que fazer algo permaneceu até abril desse ano quando correram atrás de apoio institucional, que é a ONG Avante, e de profissionais especializados em Educação para que tivessem mais propriedade nas discussões.

* Renata de Sequeira Sigarro é jornalista formada pela PUC-Rio e, desde 2010, trabalha na Assessoria de Imprensa da Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos, sendo que, de 2013 a 2015, atuou na Assessoria de Comunicação da Comissão da Verdade do Rio. Começou a carreira como repórter do projeto Viva Favela da ONG Viva Rio e, atualmente, cursa especialização em Análise de Políticas Públicas no Instituto de Economia da UFRJ.  

**Esse texto faz parte da seção Forrest Lab, da empresa Forrest-Conteúdo & Influência. A seção publica textos de autores diversos que têm em comum apenas uma característica: ter uma boa história para contar. O conteúdo dos textos publicados nesta seção expressa exclusivamente a opinião de seus autores e não têm qualquer relação com a empresa.

***Se você tem um texto interessante e gostaria de vê-lo publicado por aqui é só entrar em contato com a gente que vamos avaliá-lo e responder imediatamente🙂

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