Como eu senti na pele que precisamos falar sobre acessibilidade

Por Carla Knoplech

A convite da Embaixada de Israel, em lista promovida pela querida relações-públicas Márcia Stein, tive uma experiência única ontem à noite. Fui convidada para um jantar às cegas no hotel Caeser Park em evento capitaneado pela incrível ONG Access Israel que, em parceria com o Estado de Israel, promoveu uma verdadeira transformação no país e tornou este um modelo de acessibilidade para o mundo inteiro, onde rampas e cardápios em braile viraram um padrão e não uma exceção. Pois bem. Chegamos ao coquetel e fomos recepcionados pelo novo ministro da embaixada, Itay Tagner, e por Rani Benjamini, CEO da ONG. A ideia do jantar era falar sobre o tema, ainda tão pouco difundido no Brasil, e mais do que qualquer coisa nos colocar na pele dos portadores de deficiência, algo que não importa o quanto falemos sobre o assunto, só será possível entender ao viver de verdade a questão. E foi o que me aconteceu.

Na primeira parte da noite fomos vendados com máscaras que tapavam 100% da nossa visão e, desde o primeiro momento, a sensação era de completo medo e abandono. Eu e todos os convidados tivemos que entrar no salão com as mãos nos ombros uns dos outros, como em uma fila indiana, e precisamos que alguém nos mostrasse onde sentar. Uma vez sentada à mesa, membros da ONG falavam nos microfones as coordenadas. “Tentem localizar as suas taças de vinho”, “Peguem o pão a sua frente”, “Passem a manteiga no pão”, e por aí vai… Gente, não dá pra explicar. Coisas simples como saber se o seu copo está cheio, tatear a manteiga na mesa (e sujar os dedos até conseguir achá-la), pegar o garfo do vizinho achando que era o seu, ter a sensação de que todos estão olhando para você, ter medo de estar fazendo algo que todos na mesa fazem facilmente, mas você não. Tudo tornou-se uma dificuldade. (Adicione a essa cena o barulho de diversas taças e talheres sendo derrubados no chão).

O garçom serviu a entrada e, voilà, eu não sabia do que se tratava. Coisas simples que você não pensa quando vai a um restaurante, mas se você não ler em algum lugar o que está escrito (quantos cardápios no Brasil estão em braile?), ou se ninguém te disser do que se trata, você simplesmente não saberá o que está comendo. O prato a minha frente tinha um cheiro ótimo, mas eu não sabia o que era. Não sabia a disposição da comida no prato. Como juntar a comida no garfo se você não sabe onde ela está? Terrível. Com os minutos passando, todos tentando se ajeitar, um silêncio foi tomando conta do salão e, aos poucos, as pessoas foram comendo. O gosto veio primeiro e não mais o aspecto do prato. Foi completamente sufocante.

Fim do primeiro ato.

Tiramos a venda. Que alívio ver onde estávamos! Um salão lindo, uma mesa sensacional, ao meu lado meu amigo Acyr Mera, atrás de mim os queridos Pedro de Lamare e Bel Kutner, entre tantos outros amigos que eu conversava na sala anterior e que parecia que eu não os via há séculos. Mas fazia apenas alguns minutos que eles haviam sumido.

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Nada se compara a sensação de se localizar com a visão. Tudo é imediatamente compreendido. Nada escapa aos olhos. É surreal que a gente ignore os milhões de deficientes visuais no país e as suas dificuldades. Doeu junto na alma de todo mundo naquele momento.

O segundo ato começou com uma pergunta: “O que vocês querem de prato principal?”. Dentre as opções escolhi a carne, é claro. Pensei na hora em um belo rosbife e mal imaginava que eu me arrependeria do pedido pouco tempo depois. Eis o próximo desafio: luvas com placas de madeira por dentro para impedir nossos dedos e mãos de se dobrarem.

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Quando pensamos em pessoas com paralisias diversas, imediatamente fazemos referência a questões maiores como andar, tomar banho e correr… Mas não imaginamos que as pequenas questões do dia-a-dia possam ser tão difíceis quanto. Como cortar um bife, como segurar uma faca e um garfo se você tem paralisia nas mãos? Como segurar uma taça? Como explorar a textura de um prato nos detalhes com o toque do talher? Não dá, simplesmente não dá. Nessa hora um tremendo mal estar me abateu. Racionalizei na hora que eu não tinha a menor ideia do que se tratava ser um deficiente físico. Entendi na hora que não importa o quanto eu já tivesse lido, escrito, conversado ou convivido com o assunto, só quando você passa por isso é que vai entender do que se trata. Por isso a Access Israel foi tão incrível ontem nessa proposta de jantar às cegas. Eles conseguiram fazer com que entendêssemos e com que nos colocássemos no lugar do outro. Empatia purinha ❤

A medalhista paralímpica israelense Moran Samuel nos deu o privilégio de contar um pouco sobre a sua história ontem à noite.  Ex-jogadora de basquete, em um fatídico dia ela acordou sem sentir a parte debaixo do seu corpo, de atleta voraz e apaixonada ela passou a ser uma pessoa com paralisia. E demorou muito para que a segunda pessoa voltasse a ser a primeira novamente. “Acordei no dia seguinte sem saber quem eu era, sem saber o que fazer”, disse. Com uma bela história de superação, ela venceu o desafio que a vida lhe impôs e voltou a competir, dessa vez no Remo. E nos mostrou a sua bela medalha ontem à noite. “Enxerguem primeiro a pessoa, depois a deficiência”, ela disse. A frase bateu fundo.

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O fim da noite não poderia ser diferente. Recebemos fones de ouvido com um alto barulho de um restaurante gravado ao fundo. Sem poder tirá-los, o desafio era pedir a sobremesa para um garçom que não conseguia entender o que falávamos, ele respondia em um tom que era impossível ouvir, e o resultado? Obviamente não conseguimos pedir a opção correta do que havia no cardápio. É o que acontece na maioria dos casos. O portador de deficiência auditiva não é compreendido e fica refém do prato que o garçom consegue entender que ele quer, não necessariamente o que ele pediria. Amplie isso para serviços em gerais. Hospitais, farmácias, bancos, shoppings. Como ter uma vida normal se ninguém está preparado para a sua deficiência?

A ONG me mostrou ontem o que até então eu já sabia, mas que eu não tinha a dimensão e que eu só entendi quando vivi na prática. Eles estão no Brasil fazendo diversos projetos com crianças para a conscientização sobre a questão da acessibilidade lá no Parque Madureira até o fim das Paralimpíadas. É imperdível. O meu relato tem o intuito de traduzir um pouco do que vivi ontem para tentar fazer você também sentir na pele o que todos nós não estamos fazendo pelo portadores de deficiência. Depende da gente votar em quem defende seus direitos, atentar para a causa e aplicar no nosso trabalho e no dia-a-dia as práticas inclusivas da acessibilidade. No fim, o meu jantar às cegas me fez enxergar muita coisa.

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