Casamento é o encontro de duas famílias

 

Por Daniela Miranda, Helena Cardoso e Joana Cardoso*

**Texto especialmente escrito para a seção Forrest LAB

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Quando começamos a namorar sentimos que a paixão daquele momento é tão intensa e verdadeira que será suficiente para manter o relacionamento ao longo dos anos. Acreditamos que estamos construindo um relacionamento novo, livre de qualquer influência externa, presente ou passada. Nos sentimos imunes as vozes das famílias e às pressões culturais, porque temos a convicção de que aquela relação é só nossa, e do nosso jeito.

Mas não há carro zero nesse mercado. Cada um dos parceiros ouviu, e ainda ouve, diversas vozes que guiam suas crenças, valores e hábitos, em maior ou menor escala.

No namoro, muitas vezes, não percebemos estas divergências. A paixão, característica dessa fase, nos faz crer que somos almas gêmeas, e que, portanto, pensamos igual. Contudo, no casamento costuma aparecer a grande surpresa: cada um foi criado de um jeito distinto. A ideia de alma gêmea, onde há o pressuposto de que um já entende o outro pois são iguais, impediu a verificação de questões básicas sobre expectativas e valores, que, negligenciadas, hoje, geram desgaste.

Antes de serem um casal, os dois parceiros já eram, e continuam sendo, dois indivíduos que aprenderam em suas famílias e com suas experiências o que é o certo e o que é errado e fazem suas escolhas a partir dessas convicções.

Mais do que o encontro de duas pessoas, o casamento é o encontro de duas famílias. E para que ele funcione, o casal deve filtrar estas crenças e valores herdados e criar um código próprio. É preciso rever seu modus operante e construir uma nova estrutura em cima disso, ajustando os passos dos dois na busca de um mesmo ideal.

Cada um vivendo a seu modo não forma um casal. Há descompasso e aparece todo tipo de desencontro, do mais corriqueiro aos grandes impasses.  Até mesmo as questões pequenas, se não negociadas, vão acumulando com outras de maior impacto e formando uma bola de neve. Do tubo da pasta de dentes aberto até quem vai pagar as contas da casa começam os desgastes, até um ponto em que para decidir qual é o lado certo de se colocar o papel higiênico, se briga.

O hábito de se conversar não foi estabelecido, e, com o tempo, a capacidade de negociar diante de um problema diminui. A tolerância vai sendo minada. Cada divergência vira um pequeno embate no dia a dia.

Temos clareza de que nem sempre é assim. Tem casais que conseguem ter um canal de comunicação aberto, e evoluem junto a partir dos desafios diários. Mas outros não. E eram esses que recebíamos nos nossos consultórios. As questões eram as mesmas, mas escaladas em anos de não diálogo.

Constatamos então que estes problemas gigantes poderiam não existir, se resolvidos enquanto ainda eram questões simples; enquanto havia abertura para a conversa.

Percebemos que o diálogo e a negociação eram os grandes diferenciais que distinguiam os casais que mantinham um bom relacionamento ao longo dos anos, dos casais que entravam em crise.

Tivemos vontade, então, de impedir que esses casais que não dialogavam, cristalizassem esta dificuldade, e intervir, ali, no início, abrindo um canal para a conversa e para a negociação entre eles.

Ao mesmo tempo em que tivemos essa percepção na clínica sobre o diálogo, observamos a nossa volta, entre amigos e familiares que casavam, uma preocupação maior com a organização da festa de casamento, do que com o convívio futuro a dois.  Os noivos eram tão consumidos por questões relacionadas a organização da festa que nem lhes ocorria estruturar o dia a dia da nova rotina de casados.

Filtramos, então, todas as questões que acreditamos serem imprescindíveis de serem conversadas para se estabelecer uma boa convivência, e dispomos em um programa de cinco encontros, a serem realizados com o casal, em que estimulamos o diálogo e a negociação de maneira agradável, desmistificando a ideia de que estes são temas que “sujam” o amor. Demos a isso o nome “Véspera – preparando para casar”.

*Daniela Miranda, Helena Cardoso e Joana Cardoso são psicólogas formadas na PUC-Rio, supervisoras na instituição Núcleo-Pesquisas e sócias no projeto “Véspera – preparando para casar”. Através dele elas identificam dificuldades comuns no dia a dia de um casamento e antecipam diálogos fundamentais para a nova forma de convivência do casal.

**Esse texto faz parte da seção Forrest Lab, da empresa Forrest-Conteúdo&Influência. A seção publica textos de autores diversos que têm em comum apenas uma característica: ter uma boa história para contar. O conteúdo dos textos publicados nesta seção expressa exclusivamente a opinião de seus autores e não têm qualquer relação com a empresa.

***Se você tem um texto interessante e gostaria de vê-lo publicado por aqui é só entrar em contato com a gente que vamos avaliá-lo e responder imediatamente:)

 

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