Empreendedorismo: a nova droga sintética do mercado

Ela está sendo manufaturada coletivamente, em eventos pagos país afora, vão insistir para você experimentá-la e podem lhe convencer

Por Jaime Filho*

**Texto especialmente escrito para a seção Forrest LAB

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O cerne do discurso evangelizador dos pastores do do it yourself contemporâneo grita que o tempo é o adversário implacável de sua grande ideia. Não, não é. Caso você decida não empreender nas próximas semanas ou meses, o trem das novas relações com o trabalho não irá passar por cima da sua pessoa. Acalme-se. Não se deixe iludir pelo senso de urgência dos fiéis em busca do Santo Graal. Tudo ao seu tempo. Seu.

Maturação, conversa, pesquisa, trabalho, dúvida, muitas dúvidas, ideias jogadas no lixo, mais dúvidas, trabalho aos borbotões, pesquisas intermináveis, conversas sem fim e, de novo, maturação são parte do investimento intelectual indissociável ao ato de empreender. Se, por alguma questão, você não puder ou não estiver disposto a dar check em algum desses pontos, repense. Com calma.

A decisão de não empreender não deve jogar sobre seus ombros o manto da vergonha e fraqueza. Com o temor da pecha da covardia, o candidato a empreendedor corre o risco de se agarrar ao primeiro toco de madeira a boiar sobre as águas do rio revolto do livre mercado. Será a precipitação que o levará às corredeiras. Cabe ao candidato a empresário (e a ajuda de pessoas que empreenderam em outros momentos é sempre bem vinda, tanto os que tiveram êxito, quanto os que fracassaram) decidir se o momento é o correto.

Se você conhece alguém que insiste em lhe apontar dedos indicadores, com julgamentos definitivos sobre sua falta de ímpeto, não tenha dúvidas, fuja. Agora. Tenha em mente o que o destino reservou à mulher de Ló, ao deixar Sodoma, e vá. Sem olhar para trás.

Se há um verbo em que aquele que deseja investir capital, intelectual e financeiro, poderia aprender a conjugar com afinco é “ouvir”. Ouça e lute contra o desejo de querer adaptar todas as boas ideias dos outros ao seu novo negócio. Por vezes, boas experiências dos outros são apenas isso mesmo: boas experiências dos outros. Não quer dizer que caberão feito ‘mão e luva’ para você. Por outro lado, a tentação de tapar os ouvidos para exemplos ruins, como se eles fossem um mal presságio para uma promissora iniciativa, pode ser um equívoco. Cuidado. Não se iluda. Exemplos desastrosos podem ser tão enriquecedores quanto boas experiências.

Há de se lutar, contudo, contra os pessimistas e arautos do caos. E, sim, contra as lanças envenenadas da inveja. Observe e aprenda a diferenciar um conselho contrário da nuvem negra do ‘não vai dar certo’. Passo seguinte, afaste-se. Eles são tão danosos quanto juízes cheios de verdades e certezas.

Empreender é pôr de pé hoje algo que só irá se construir amanhã. E depois de amanhã. E depois. Construção essa que, talvez, nunca se conclua. Como você trabalha com a possibilidade de que sua ideia nunca venha a ser exatamente aquilo que você concebeu? Caso ela seja podada, transformada, revirada do avesso, ainda assim vai tratá-la com carinho, afeto e perseverança? Já pensou se aquela grande ideia que dormiu na gaveta por anos deveria continuar por lá? Já considerou criar algo novo e jogar todos os rascunhos até aqui no lixo? E esvaziar a lixeira? Definitivamente? Considere e veja como se sente. Não ter respostas para as perguntas acima não é um pecado. Mas pode indicar caminhos.

O empreendedorismo se transforma, aos poucos, numa espécie de ‘nova droga sintética’ oferecida em palestras, feiras, centros de convenções e congressos, de Norte a Sul do país (e fora dele). Quem se horrorizava com outras feiras de drogas, hoje não sente o golpe escamoteado em folders, cursos, coaches e sorrisos com câimbras. “Se você não conhece, você está por fora, vai ficar para trás”, insistem. Se conquistam uma outra ovelha, quase é possível ouvir em coro Aleluia!. Nesse ponto, o conselho dado pelo rapper Criolo, em Bogotá, serve como analogia de como previnir-se dos ‘novos traficantes’: “Fique atento irmão! Fique atento. Quando uma pessoa lhe oferece um caminho mais curto… quando uma pessoa lhe oferece um caminho mais curto, fique atento!”.

*Jaime Filho é jornalista e diretor regional da CasaDigital. Carioca que escolheu São Paulo para viver, flerta desde sempre com o desejo de transformar projetos pessoais em realidade (ainda que virtual). Alguns aconteceram, outros estão por vir.

**Esse texto faz parte da seção Forrest Lab, da empresa Forrest-Conteúdo&Influência. A seção publica textos de autores diversos que têm em comum apenas uma característica: ter uma boa história para contar. O conteúdo dos textos publicados nesta seção expressa exclusivamente a opinião de seus autores e não têm qualquer relação com a empresa.

***Se você tem um texto interessante e gostaria de vê-lo publicado por aqui é só entrar em contato com a gente que vamos avaliá-lo e responder imediatamente 🙂

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