42 coisas que aprendi quando fui morar em Londres (e aqui ainda estou 2 anos depois!)

Por Alice Motta*

** Texto especialmente escrito para a seção Forrest LAB

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1-Você não sente que está em um lugar ou em uma cidade. Você sente que é possível mudar de nação a cada esquina: Índia, Espanha, Itália, Marrocos, Brasil… Todos os países estão bem representados aqui seja através da comida, do vestuário ou das línguas faladas e ouvidas por todos os cantos;

2-Há misturas impensáveis de culturas. Outro dia por exemplo fui num jazz indiano tocado com cítara;

3-Uma mulher pode sair sozinha a qualquer hora do dia ou da noite e isso não significa necessariamente que ela vai ouvir coisas estúpidas ou ser abordada de forma gratuita. E isso redefine todo o nosso conceito interno de segurança;

4- Você pode sair com alguém e não necessariamente isso vai ter como consequência um romance, quer dizer apenas que você vai conhecer uma pessoa. Aliás, “date” é um assunto à parte, complexo e até meio esquisito;

5-As igrejas aqui servem pra tudo: tem desde aula de yoga e dança até concerto de música. Culto que é bom só aos domingos e mesmo assim não são em todas as igrejas;

6-Transporte público é uma atração turística em si e um produto de marketing poderoso. O mapa do “Tube”- como eles chamam o metrô- é uma das imagens mais famosas do mundo e que origina uma imensa variedade de souvenires;

7-A pessoa pode estar super feliz, mas se entrar no metrô tem que fazer cara de paisagem e olhar pro nada! Se o metrô estiver cheio então, só nos resta olhar pra baixo;

8-As pessoas falam “I’m sorry” pra qualquer esbarrãozinho. Encostou, tem que se desculpar. E se realmente esbarrar na pessoa, vira “I am sooo sorry!”. Agora imagina isso no carnaval… Ou simplesmente no metrô às seis da tarde;

9-Outra curiosidade sobre o linguajar inglês é a resposta que eles dão para a cotidiana pergunta “Como você vai?”. A pessoa que está ok diz “Not bad” e a que está mais ou menos diz “Not too bad”. Ou seja, “não muito mal” é quando a pessoa está bem;

10-O metrô pode estar lotado, que as pessoas dão um espacinho pra não se tocarem. Uns centímetros de segurança;

11-Tem audição pra tocar e cantar no metrô e os músicos, em geral, são muito bons;

12-A noitada começa cedo e isso quer dizer que você pode sair dia de semana e acordar pra trabalhar no dia seguinte tranquilamente. Quer dizer, nem sempre…;

13-Perto de meia noite o que você vê de gente correndo na rua pra pegar o último trem “não está no gibi” – como dizia a minha avó. – Não tá mesmo, vó!

14-O trem da meia noite tem de tudo! Das pessoas mais loucas e trêbadas aos trabalhadores cansados e de saco cheio daquilo tudo;

15-A sociedade se transforma completamente numa sexta à noite depois de um happy hour. Parece que toda aquela seriedade é descomprimida e você vê todos os tipos na rua. É uma quarta-feira de cinzas a cada semana.

16-As mulheres grávidas usam um botton na roupa escrito “Baby on board” – o que ajuda muito a ceder o assento prioritário sem embaraços;

17-As pessoas esperam todos saírem para só depois entrar no metrô ou elevador. E é por essa regra que se vê se a pessoa é turista ou residente;

18 -Há faixa de ônibus e de bicicleta nas ruas da cidade inteira e os motoristas respeitam bastante os ciclistas em sua maioria. Ah, e os ônibus vão bem devagarinho. Então é tranquilo dividir a faixa com eles;

19-Os ônibus aqui são baixinhos para facilitar a entrada dos passageiros e todos eles têm rampa de acesso à cadeirantes ou para mães com carrinho de bebê;

20-Você pode mexer no Iphone na rua sem ter que esconder. Ninguém vai meter a mão e sair correndo com seu aparelho. Quer dizer…;

21-As pessoas se vestem criativamente. A rua é palco de vários personagens;

22-Ô povo pra curtir um vintage! Se você se identifica com o movimento então não perca tempo e venha pra cá;

23-Brechó aqui se chama “Charity shop” porque normalmente estão vinculados a alguma instituição de caridade. O que te dá uma boa desculpa pra comprar roupa: reciclar e ajudar o próximo;

24-Você pode sair de casa de pijama ou com maquiagem carregada às 8h da manhã que não faz a menor diferença. As pessoas nāo te julgam pela forma como você se veste ou aparenta. Na verdade elas mal te olham;

25-É muito difícil achar uma comida que tenha sabor de verdade! A maioria dos vegetais vêm de fora e quando chegam são verdes e insossos. Então não tem desculpa pra não comer salada, pois tomate tem praticamente o mesmo gosto do frango;

26-Tomar vinho em pub é pra quem não gosta de cerveja… e nem de vinho! (Porque por aqui eles servem  a bebida quente!);

27-Encontrar um suco natural é mais difícil que achar uma cerveja gelada, mas ambos são raridades por aqui, então brasileiro sofre no verão;

28-Há sempre um lugar novo para conhecer e uma coisa muito legal pra fazer. Sempre!;

29-Os museus são de graça e as exposições temporárias são pagas, mas valem a pena porque elas são o máximo;

30-Os teatros ficam cheios mesmo sem atores famosos nas peças;

31-Artistas geralmente têm um segundo emprego pra pagar as contas e não são vistos como mal sucedidos por isso;

32-Aqui se você diz que é ator ninguém te pergunta qual novela você fez. Em vez disso te perguntam “que tipo de atuação te interessa?”. Isso é que é cultura!;

33-Aqui chove muitas vezes, sim. Mas é chuva fina na maioria das vezes. Acho que a chuva de um ano daqui dá a chuva de verão de um fim de semana no Rio;

34-Não tem muitas lixeiras,nem muitos garis na cidade e mesmo assim as ruas são limpas! Quer dizer…;

34-As flores daqui são simplesmente maravilhosas e os jardins são uma escola de requinte;

35-Sol é artigo de luxo e muda o humor da cidade completamente. Falar com um estranho quando está sol pode trazer um amigo novo. O mesmo num dia de chuva é visto como algo estranho. Bem estranho.;

36-Quem não tem cão caça com gato. No verão os parques ficam lotados e é uma farofada só: gente de biquíni e short fazendo churrasco e jogando frisbee (entretenimento que ainda estou tentando descobrir a graça);

37-Rugby está para o inglês assim como o futebol para o brasileiro. Agora me diz se dá para um brasileiro conversar sobre rugby? Por isso que é difícil fazer amizade com inglês!;

38-Londres é caro, mas tem opções mais em conta como andar de bicicleta, morar num prédio de ocupação, morar num barco no canal, ir passear no parque ou no museu, comer em mercados de rua, comprar roupa em “Charity shop” e etc. Tudo isso te permite ter uma vida boa sem ter que se matar para isso;

39-O mais importante: a saúde pública é de graça e para todos. Aliás, tem gente que vem do mundo todo só para ter acesso a um tratamento de saúde. Coisa que, aliás, está quebrando o sistema;

40 -Morar em Londres não é perfeito, mas é bom. Você se reinventa, encontra gente do mundo todo. Esbarra com David Beckhan num dia, conhece um artista de rua bacana no outro. Mas como tudo na vida, tem seus altos e baixos. Há dias em que o humor geral da cidade deprime e dá aquele aperto no peito de saudade de ver gente sorrir à toa e cantarolar trabalhando;

41-Tem outros dias em que você pega uma cesta de piquenique e vai pedalar até uma floresta,vê as folhas de outono caindo e se sente dentro de um filme. É o máximo;

42 -Mas ao final de algumas temporadas, a solidão, o alto custo de vida e a falta de vitamina D acabam pesando. Muitos se mudam para a Espanha, Portugal, Austrália e outros destinos solares. Pois Londres é cinza, que é a cor do trabalho. Talvez por isso tenha tanta gente jovem por aqui. A pergunta que fica é “por quanto tempo na vida a sua prioridade é o trabalho?”. E se for por um bom tempo, então viva na cidade cinza colorindo a vida como pode. Seja feliz.

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* Alice Motta é atriz, nasceu no Rio de Janeiro e mudou-se para Londres há dois anos. Trabalha atualmente no projeto Alice in Wonderland in Covent Garden e ainda não tem previsão de voltar para o Brasil. Por aqui sempre trabalhou com teatro e televisão. Foi atriz no musical “O despertar da Primavera”, da dupla Charles Möeller e Cláudio Botelho, atriz na novela “Araguaia”, da TV Globo e atuou em peças de grandes autores como “A Pena e a Lei” de Ariano Suassuna e ‘Perdoa-me por me traíres”, de Nelson Rodrigues.

**Esse texto faz parte da seção Forrest Lab, da empresa Forrest-Conteúdo&Influência. A seção publica textos de autores diversos que têm em comum apenas uma característica: ter uma boa história para contar. O conteúdo dos textos publicados nesta seção expressa exclusivamente a opinião de seus autores e não têm qualquer relação com a empresa.

***Se você tem um texto interessante e gostaria de vê-lo publicado por aqui é só entrar em contato com a gente que vamos avaliá-lo e responder imediatamente 🙂

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